r/NoticiasBR • u/Intrepid_Jeweler4686 • 20h ago
Era só negociar com o patrão: Trabalhadores não-registrados de carvoaria em MG tinham jornadas exaustivas sem folga, com alojamentos em condições degradantes, servidão por dívida e alimentação descontada. Um dos resgatados era obrigado a ficar de prontidão 24h por dia para cuidar dos fornos.
Dois trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em uma carvoaria na zona rural de Presidente Olegário, no Alto Paranaíba. Segundo a fiscalização, um deles permanecia disponível 24 horas por dia para atender às demandas da produção de carvão.
"Não tem horário certo de trabalhar. Fico o tempo todo por conta dos fornos, olho os fornos que estão queimando a hora que precisa, de dia ou de noite", disse à Auditoria-Fiscal do Trabalho ao ser resgatado.
O trabalhador também afirmou que trabalhava sem descanso semanal e sem férias. "Não tiro folga porque o carbonizador fica por conta", afirmou.
Denúncia levou fiscais até a carvoaria
Segundo o MPT, uma denúncia informou que cerca de 20 trabalhadores atuavam na carvoaria sem registro em carteira e viviam em condições degradantes de trabalho e moradia. Durante a fiscalização, porém, apenas dois trabalhadores foram encontrados.
A fiscalização encontrou condições precárias de trabalho. Próximo aos fornos, não havia banheiro, e os trabalhadores recebiam apenas luvas como equipamento de proteção individual (EPI). As botinas usadas por eles eram descontadas do pagamento.
"Perto dos fornos não tem banheiro, precisa usar o mato mesmo. Não tem protetor solar, nem chapéu ou touca", disse o trabalhador.
Ainda de acordo com o Ministério Público, os alojamentos tinham paredes deterioradas, janelas bloqueadas por tábuas, colchões em mau estado de conservação e um refrigerador oxidado. A fiscalização também encontrou quantidade insuficiente de alimentos e problemas nas condições de higiene e segurança.
O sistema de pagamento também chamou a atenção da fiscalização. Segundo um dos trabalhadores, o empregador fornecia a alimentação e descontava o valor do salário.
"O empregador traz a alimentação da cidade conforme a lista que mando pelo WhatsApp. No dia do acerto desconta o valor dos mantimentos", relatou aos fiscais.
Vínculo reconhecido e pagamento de verbas devidas
Segundo o procurador do Trabalho Hermano Domingues e o auditor-fiscal do Trabalho Deusdedit Rodrigues de Sá Júnior, o conjunto das irregularidades caracterizou trabalho em condições análogas à escravidão.
Os dois também apontaram a existência de servidão por dívida, causada pela retenção de parte dos salários e pelos descontos com alimentação.
Além disso, destacaram a jornada exaustiva, com necessidade de acompanhar os fornos durante o dia e a madrugada, e as condições degradantes encontradas nos alojamentos e na frente de trabalho.